O que estamos deixando para trás?

Abaixo, reproduzo trecho do livro “As chaves do Inconsciente”, da Dra. Renate Jost de Moraes (pronuncia-se Iôst), que trata da questão interior do homem, sua mente inconsciente, que nas Escrituras pode ser encontrada como ‘mente espiritual’ que se contrapõe à ‘mente carnal’, ou o consciente racional, lógico, linear. Aguardem, pois vou escrever muito mais em cima do conteúdo do livro, o qual desafia boa parte dos cristãos a investigar as Escrituras com o coração aberto, pois o Espírito de Deus nos deixou algo mais que maravilhoso e não estamos sabendo usar. O texto da parte final do livro fala por si só. Boa leitura!

***

Entre os assuntos que abordamos neste livro, a constatação acima referida pareceu-nos uma das mais importantes para ajudar ao homem sofredor de nossos dias. E muito significativo o alto índice de doenças físicas e psíquicas, cuja causa nada mais é do que o sentimento de culpa, resultante, na maioria das vezes, do não segui­mento dessas normas éticas internas, donde também surge o blo­queio do impulso natural de autotranscendência que quer a doação ao próximo e o encontro com Deus. Assim, a conhecida e antiga norma religiosa de orientar os fiéis para um exame de consciência diário e o conseqüente rito de reconciliação com Deus tinham um alcance muito mais amplo do que, talvez, os próprios religiosos e fiéis imaginassem, ou seja, o de preservar o psiquismo do sentimen­to de culpa e o organismo psicofísico da autodestruição inconscien­te, de desequilíbrios e de doenças físicas somatizadas.

Se o homem se detivesse mais na introspecção, na busca dos ditames de sua consciência, há muito já teria compreendido essa realidade. Mas o homem foge de si mesmo. Tem medo de olhar para dentro de si. E assim, sem o perceber, cai na armadilha dos tempos modernos, cresce no sucesso exterior na mesma medida em que fracassa, desequilibra e destrói o homem interior. Sempre foi bem mais fácil dominar a técnica, a ciência e, hoje, o computador e o cosmo do que controlar o homem interno, do que enfrentar a si mesmo.

O homem está perdendo, cada vez mais, sua identidade e sua dignidade diante de novas e renovadas teorias históricas, sociais, psicológicas e até religiosas, diante do cientificismo e do tecnicis­mo. Parece que a fuga inconsciente da incapacidade de compreender o ser humano em sua realidade total — porque não se quer admitir sua constituição intrinsecamente estável e transcendental — lança as pesquisas e os estudos para o ambiente que o cerca, desviando o objetivo da atenção apenas para o observável, o quantitativo, o manipulável, enfoques que não permitem encontrar o homem.

Tenta-se, por vezes, estender o estudo ao homem em seu interior. É quando se preparam psicólogos, médicos-psiquiatras e outros profissionais, em número cada vez maior. Mas estes, parado­xalmente, acabam sendo envolvidos pela mentalidade da época e aprendem, desde as universidades, a cuidar de seus pacientes, pres­cindindo do humano, atendo-se muito mais ao corpo, ao psiquismo, ao cérebro, enfim, ao ser animal que ao ser humano em si. Existe uma espécie de escrúpulo, um medo de considerar o homem no que o define como tal, no que o distingue de outros seres, apesar de que todos os homens, mesmo os mais incultos, sabem intuitiva e vivencialmente da existência de uma realidade noológica no homem. E, se o objetivo da Ciência é o de investigar a veracidade dos fatos, talvez experimentemos muitas vezes mais um preconceito científico do que um método científico, o qual não poderia fugir da constatação fiel e do estudo dos fatos da forma como se apresentam na natureza humana.

E o fruto do que é ilegítimo e inautêntico é a contradição: assim, sob o pretexto de se defender uma sociedade ideal, sacrifica- se, com freqüência, a pessoa individual e gera-se um alheamento, um distanciamento sempre maior do bem comum. Desejando e promovendo-se mudanças externas ao homem, engendradas pela força, pela violência, pela criação de estruturas ou molduras de encaixe igualitário, geram-se conjuntos aparentemente organizados, mas rígidos, controlados pelo medo, monótonos, sem colorido e sem vida, porque reduzem a um só nível o incomensurável potencial criativo do ser humano. No campo psicológico, continua-se enfati­zando a necessidade da expansão livre dos impulsos psicofisiológicos, orientando o paciente para a dispensa do autocontrole e, por­tanto, impedindo o seu amadurecimento como ser humano. Moti­vam-se as pessoas para o uso da liberdade, indicando para isso, paradoxalmente, o caminho da escravidão aos impulsos e aos senti­dos. Focalizando-se os objetivos diretamente sobre a busca do prazer e da satisfação, dificulta-se ou impossibilita-se este encontro. A sintomatologia externa dos problemas sofridos por um paciente tenta-se resolver com soluções que criam conflitos internos, que conduzem à angústia existencial ou à autodestruição física e psico­lógica. E até a mensagem de Cristo, toda centralizada sobre o homem-pessoa, quer-se corrigir, dando-lhe outras conotações ou interpretações, que em nada ajudam mas que perturbam sempre, abalando a fé daqueles que crêem. Esse emaranhado de confusões torna-se gradativamente letal ao ser humano, especialmente para a juventude, a nova geração da qual depende a humanidade futura.

E necessário redescobrir e valorizar o homem. Somente pela mudança interna do ser humano atingem-se todos os homens e melhora-se a humanidade. Diante do enfoque do homem interno, pode-se fazer melhor justiça, porque o ângulo do julgamento é mais autêntico. Nessa perspectiva, há de se perceber que todos os homens têm em si tanto riquezas quanto pobrezas. Assim, como disse um sacerdote num sermão de domingo na cidade de Wetzlar, Alemanha: “Pobre é aquele que se vê isolado do mundo ou que se fecha no egocentrismo, que não oferece aos outros homens os dons particu­lares que Deus lhe deu e que empobrece aos que com ele convivem; e rico é todo aquele que, independente de possuir ou não bens materiais, sabe doar a si mesmo, porque enriquece aos outros com cada um dos seus gestos, mesmo com o mais humilde!”

Pelo enfoque do homem interno, equilibram-se poderosos com fracos, porque há fraquezas semelhantes aos humildes nos poderosos e muita força em pessoas humildes. Por esse meio, elimina-se a distância das divisões em classes sociais, porque, em qualquer classe ou cultura, os casais se amam e se desentendem, o homem é doente ou sadio, sofre ou é feliz, pode ser mau ou bom, pode construir ou destruir. Somente quando focalizamos o homem-pessoa em seu interior e integralmente é que podemos descobrir os traços comuns de todos os homens para distingui-los daquilo que é específico de cada um. Só pela compreensão desse homem é que se pode ajudá-lo com eficácia. E apenas o homem recuperado em sua estrutura interna poderá prestar ajuda verdadeira aos outros. De fato, não se concebe uma pessoa equilibrada e sadia que não queira contribuir para um mundo melhor, uma vez que sua própria auto-realização depende de sua ação útil e produtiva.

Sabe-se muito bem pela História “que as civilizações sucum­bem muito mais pelo enfraquecimento moral dos homens que as formam do que por agressões externas que as atingem” (Michel Quoist). As mudanças expressivas da humanidade têm acontecido principalmente devido a grandes homens que ultrapassaram o seu tempo não só como pessoas, mas com a sua mensagem. Mais realizou Cristo, Ghandi, um Francisco de Assis, ou uma humilde e pobre Tereza de Calcutá na mudança da mentalidade dos homens do que as pressões externas monolíticas exercidas sobre as socie­dades.

Ao enfatizar a importância de se cuidar da formação do ho­mem-pessoa, não queremos, de forma alguma, minimizar os traba­lhos sociais ou comunitários. Nossa intenção é contrabalançar, por­que o homem não tem sido esquecido apenas pela técnica; mesmo nas ciências sócio-humanísticas, ou em rituais religiosos criados para o atendimento individual dos fiéis, ainda em cerimônias desti­nadas a transmitir a mensagem evangélica, acontece, freqüentemen­te, a substituição total desses conteúdos por incentivos de ação comunitária ou por discursos apenas sociopolíticos, o que deixa um vazio nos corações, o que debilita a fé e gera o afastamento dos ambientes religiosos, quando não resulta em divisão e ódio, exata­mente o oposto dos objetivos visados por esses recursos.

Queremos lembrar que é preciso não esquecer a importância de se concentrar as forças da motivação sobre o amor autêntico que deseja a própria melhora da pessoa para melhor poder servir a humanidade. Diz um lema básico de Serviço Social que “todos os homens e cada um em particular quer e sempre pode mudar para melhor”. E é por crer na capacidade de mudança do homem, sedento de orientações verdadeiras, coerentes com o seu bem-estar de pessoa individual e comunitária, que nos pareceu valer a pena escrever este trabalho.

(As Chaves do Inconsciente – 9a Edição – pg.296 a 298 – Ed. AGIR – 1994).

2 pensamentos sobre “O que estamos deixando para trás?

  1. Resolvi escrever este comentário para dizer que faz uns dois anos que tenho seu blog nos meus favoritos. É verdade que entro pouco aqui. No entanto, todas as vezes que o faço, fico satisfeito com o que leio. Este texto, em particular, me chamou a atenção, porque toca num ponto que acho bastante sinistro nos dias de hoje: a destruição da humanidade do homem. Na minha opinião,este é o problema central, originário, de todas as crises (culturais, sociais, econômicas) que vemos acontecer diariamente. Para mim, o sinal mais imediato para se perceber que algo está bastante errado são os casos de crimes absurdos, que vêm se tornando mais comuns (penso, por exemplo, no caso da dentista que foi queimada por ter pouco dinheiro na conta e no menino de 5 anos que levou um tiro na cabeça porque chorava durante um assalto; infelizmente há muitos casos semelhantes). Não creio que isso seja normal. E custo a acreditar que a sociedade humana sempre produziu atrocidades do mesmo tipo, com a mesma frequência. Sim, há algo muito errado. É preciso redescobrir a humanidade do homem e tentar consertá-la e preservá-la da melhor forma. Continue o bom trabalho! Saiba que há gente que lê seus posts. Fique com Deus. Um abraço. :o)

    • Obrigado, Marcelo. Fico contente em saber que sirvo. Seu comentário procede. Observe o que diz Gn.6:4 – “Havia naqueles dias, gigantes na terra, e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas do homens, e dela geraram filhos…”. Vejamos: Naqueles dias, quais? Nos dias de Noé, que tinha 16 anos quando Adão morreu (Gn.5). Ainda: ‘… e também depois…’, o que significa que eles continuaram possuindo as filhas dos homens depois dos dias de Noé e gerando híbridos (eis o motivo da destruição do mundo antigo pelo dilúvio). Mais tarde, Sodoma e Gomorra foram destruídas devido à perversidade promovida pelos híbridos, também pela promiscuidade (queriam possuir até os anjos que visitavam Ló). Esses híbridos dos dias de Noé também morreram e foram visitados por Cristo no Espírito (1Pe.3:19,20) para ouvirem o evangelho. Nas Escrituras há indicações de que Deus colocou barreiras para os Benai Elohim (filhos de Deus), mas o homem continuava a invocar os ‘deuses’, o que lhes abria as portas para atuarem na terra. Com a vinda de Cristo, inicia-se o período dos tempos finais, mais marcadamente após o retorno de Israel à Terra Prometida (Jr.23:7,8; de 9 a 20 trata do desvio do povo de Deus e os juízos sobre a casa de Deus 1Pe.4:17, o nosso tempo). Com o crescimento do movimento Nova Era, filho direto da Teosofia da Mme. Blavastsky, cresce a invocação de espíritos, os ‘deuses antigos’, o que resulta em mais perversidade, a qual atinge limites altíssimos, tais como em Sodoma e Gomorra. Tais deuses são anjos caídos e demônios.
      De fato, o que se vê não é normal, mas é o caminho da humanidade sem Deus. Quando me perguntam “Onde estava seu Deus quando isso aconteceu?”, respondo: “Estava do lado de fora, onde o deixaram batendo na porta para entrar nos corações dos homens e ensiná-los a respeito do amor; vocês O deixam lá. Este é o melhor mundo possível sem Deus, mas pode piorar”. O retorno à sensatez só é obtido por meio de Cristo, que nos faz nascer de novo.
      A humanidade não mais retornará, embora ainda haja um tempo de ativa pregação do evangelho com frutos benéficos. Nossos dias mostram que estamos no período de evidenciação das sete igrejas de Apocalipse 2,3 com um detalhe interessante: o socialismo ‘humanista’ é o caminho de Balaão, que colocava pedras de tropeço diante dos filhos de Deus sendo, inclusive, gnóstico como o caminho dos nicolaítas (igreja de Pérgamo). Ao meu ver, a igreja terá nova separação e surgirão uma Filadélfia e uma Smirna, sem repreensões da parte do Senhor. O socialismo/globalismo é uma seita gnóstica com todos os elementos da religião formal: criação, queda e redenção. Criação (origem): a natureza; queda – surgimento da propriedade privada; redenção: destruição da propriedade privada através da revolução (veja o livro Verdade Absoluta de Nancy Pearsey). Na verdade, é o tapete vermelho para a vinda do Iníquo e não vai dar paz alguma à humanidade exceto uma falsa sensação de paz política ao mesmo tempo em que cresce a angústia existencial pela ausência de Deus no coração dos homens. O assunto é vasto, mas compensa conhecê-lo. The bottom line: firme-se no Senhor Jesus e peça sabedoria para os tempos presentes pois ainda veremos muitas coisas horrendas. Enfim, amor é a palavra chave. Que a Igreja acorde! Escreva mais. Abraços!

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