A diferença

Um jovem procurou o velho sábio com uma dúvida que lhe assaltava.

– Qual a diferença entre o perdão dos homens e o perdão de Deus? – disse o jovem.
– A diferença é o tempo – respondeu o sábio.
– O tempo? Como pode ser isso? – retrucou o jovem.
– O perdão dos homens é aquele que te foi dado porque, vendo que pecaste, te arrependeste. O perdão de Deus é aquele que te foi dado antes mesmo de saberes que tinhas pecado, e por isso te arrependes. Mas parece que, agora, queres saber o que significa arrependimento, não? – perguntou o sábio.
O jovem, percebendo que aquela era sua dúvida mais profunda, concordou. Então, disse-lhe o sábio:

– Arrependimento não é o que tu fazes para alcançar o perdão, mas o que fazes porque foste perdoado. Podes chamar, também, de gratidão.

– Mas isso parece-me injusto – disse o jovem. Sou perdoado antes de me arrepender?

– Vejo que também não sabes o que significa justiça.

– Sei e te respondo. Justiça significa dar a cada um o que é seu.

– Disseste bem – respondeu o sábio. – Mas falas da justiça temporal dos homens enquanto te falo das coisas eternas. Justiça divina é aquela que te torna justo porque te dá uma justificativa quando não tens nenhuma. Sabendo que transgrides as leis eternas que estão dentro de ti desde que foste criado, as quais te sussurram a sabedoria para distinguires o bem do mal, como justificarias o pecado que praticas?

– Digo que não sei, de fato, tal distinção perfeitamente. Por isso peco.

– E por que te sentes mal quando pecas? Acaso pensas que isso é de tua educação?

– Claro! Meus pais me ensinaram o que é bom e o que é mau. Por isso sei alguma coisa.

– Erras agora. Como sabem a diferença entre o bem e o mal aqueles que nunca ouviram a educação que teus pais te deram? Como sabem que a morte do inimigo significa vingança? Como sabem que a perda de um ente querido significa dor? Como sabem que o nascimento de um filho significa alegria? Por que todas as tribos do mundo, mesmo distantes da nossa educação, conhecem tal diferença sem nunca terem ouvido falar do que falamos aqui?

O jovem calou-se, não sabendo responder. O sábio continuou:

– Pois eu te dou a resposta. Porque cada indivíduo nasce tendo dentro de si as leis eternas absolutas. Mesmo os que nunca ouviram falar delas têm dentro de si o código moral capaz de lhes dar distinção entre o que dói e o que alegra, entre o que mata e o que dá vida. Por isso, em todo lugar, os homens são tão parecidos em suas ações.

– Por que, então, algumas tribos se alegram quando, por ordem do Pajé, matam suas crianças defeituosas? Não sentem a dor moral de que falas?

– Sentem da mesma forma e se entristecem, mas vestem as máscaras da cultura que lhes foi transmitida para não serem julgadas estranhas à tribo em que vivem. Atrás das máscaras está o mesmo tipo de homem que existe em qualquer lugar do mundo. Assim como as palavras escritas são simbolos que representam um conteúdo, as máscaras representam o que os homens cultivam no coração. Tira a máscara e verás o homem como ele realmente é.

– E como faço para tirá-las? – perguntou o jovem, curioso.

– É difícil e só aprenderás com o tempo. Fala a verdade para ti mesmo e entenderás.

– Eu não minto para mim! – respondeu o jovem.

– Acabas de mentir para ti mesmo. Mas não mentiste para mim, que sou igual a ti. Lembra: quando disseres a verdade sobre ti para ti mesmo começarás a destruir a máscara que vestiste ao longo do tempo. Vendo como tu és realmente, saberás que há muito por ser feito em ti mesmo, mas verás também que, sozinho, não consegues corrigir todas as tuas imperfeições.

– E o que faço, então?

– Lembras da primeira pergunta que fizeste?

– Sim, claro, sobre a diferença entre o perdão dos homens e o perdão de Deus.

– Então, pratica o que aprendeste. Arrepende-te quando reconheceres cada imperfeição e serás justificado, e verás que tuas imperfeições começam a desaparecer. Não por mágica, mas por entenderes que cada imperfeição tua tem uma perfeição correspondente Naquele que te justificou, cada mágoa tua tem uma alegria e cada engano teu tem Nele uma verdade. Substitui o que está em ti por aquilo que está Nele e, moldando teu pensamento ao Dele, começarás a viver em verdade porque Ele é a Verdade.  Amor, justiça, perdão e salvação são os quatro pontos da cruz onde Ele realizou tudo quanto precisas para seres o que em ti está. Mas lembra-te: a muitos ofenderás porque serás verdadeiro. A verdade ofende quem dela se afasta. Mas lembra-te também que podes vencer o mal com o bem, e se o teu amor pela verdade for maior que a tua acomodação no engano,  serás vitorioso em tudo quanto fizeres.

E o jovem foi-se, cabisbaixo, porque não tinha coragem para olhar-se a si mesmo. Sua autopiedade dava-lhe o ganho secundário que o acalentava mesmo sob intenso sofrimento de alma.

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