O marxismo na visão de um apologista cristão

 

“Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl 2.8)

 

Começando com uma questão

 

Atualmente os países muçulmanos são o maior grupo de perseguição aos cristãos. Do ranking criado pela organização missionária Portas Abertas, quase 90% dos cinqüenta países listados são muçulmanos. Eles estão presentes em todos os níveis desde perseguição severa até problemas ocasionais com a Igreja.

 

Entretanto, o primeiro lugar não pertence a um país muçulmano. Pertence à Coréia do Norte, um país governado pela ideologia marxista. A nota conferida por Portas Abertas é de 82 pontos contra 68,5 do segundo colocado, a Arábia Saudita. Uma diferença considerável. Se lembrarmos que o país já foi testemunha de um grande avivamento, chegando Pyioniang, sua capital, a possuir 13% de cristãos, nos perguntamos: O que aconteceu?

 

Podemos entender a oposição muçulmana-cristã por tratar-se de duas religiões conflitantes em seus fundamentos, com uma inimizade histórica que vai desde os seus primórdios. Mas como entender que os países onde o marxismo foi adotado como ideologia o cristianismo foi perseguido de uma forma tão perversa, intensa e diabólica? Como explicar que um homem educado como judeu e protestante criasse uma ideologia tão inimiga do cristianismo? O que disse ou escreveu Karl Marx que no fim resultou em 70 anos de perseguição serrada à Igreja e que persiste até os dias de hoje?

 

O QUE NOS INTERESSA NO MARXISMO

 

 

“Examinai tudo. Retende o que for bom” (1 Ts 5.21)

 

 

Não é definitivamente o marxismo político que nos importa aqui, mas o marxismo como ideologia, com seus conceitos sobre o homem, sobre Deus, sobre o mundo, sobre o futuro. Quem o conhece profundamente sabe que não é a questão de um mero partido político, de uma doutrina econômica, mas de uma cosmologia que influência toda a maneira de ver a vida. Não queremos falar dos aspectos econômicos ou políticos da doutrina de Marx. Queremos apenas analisar os pontos que levaram os países que adotaram sua ideologia a perseguir, torturar e odiar aos cristãos.

 

Somos cristãos e temos por base as Escrituras Sagradas como revelação única e infalível dos propósitos de Deus. Ela é o crivo e o prumo com o qual medimos qualquer afirmação, principalmente se estas se propõe a responder questões vitais como aquelas com as quais o marxismo lida. Queremos expor um pouco de Marx e sua doutrina, analisando-a à luz da Palavra de Deus

 

Para efeitos de compreensão estaremos usando os termos marxismo, comunismo e socialismo como intercambiáveis, reconhecendo que em uma literatura política eles possam apresentar nuances que os diferenciam.

 

O homem Karl Marx

 

O homem bom tira boas coisas do seu bom tesouro, e o homem mau do seu mau tesouro tira coisas más. (Mateus 12.35)

 

(…) aborreço as ações daqueles que se desviam; nada se me pegará. Um coração perverso se apartará de mim; não conhecerei o homem mau. (Salmo 101.3,4).

 

Karl Marx seguiu o sinistro caminho de Lúcifer, tendo sido criado nas Sagrada Letras, primeiro como um judeu, depois como um protestante. Aos quinze anos ele escreveria:

 

“Assim a história da humanidade nos ensina a necessidade de união com Cristo. Também quando consideramos a história dos indivíduos, e a natureza do homem, vemos imediatamente a centelha do divino em seu peito (…) A união dos crentes com Cristo pode vencer estes [desejos pecaminosos] e dar uma felicidade que um epicureu em sua filosofia simples e o pensador mais profundo nas profundezas de seu conhecimento procuram em vão, que somente alguém ligado incondicionalmente e infantilmente em Cristo pode saber e dirige-se a uma vida mais bela e elevada” (Karl Marx, Vida e Pensamento, Vozes)

 

 

 

E então nos perguntamos: O que aconteceu com ele? Por que veio a tornar-se um ateu militante, um inimigo da fé cristã e desenvolver um sistema de pensamento que bania a Deus completamente? Em nome de suas teorias, sistemas políticos mataram, torturaram e perseguiram cristãos no mundo inteiro. Difícil conceber que todo este veneno tenha vertido de uma mente que um dia fora supostamente cristã. Porém, muito do conteúdo dos escritos de Marx e mesmo do subseqüente desenvolvimento de sua doutrina é um frasco contendo uma peçonha mortal para o cristianismo (Rm 3.13).

 

Seria muito bom lermos alguns trechos de alguns poemas escritos por Marx já durante o tempo em que estudou na universidade de Berlim.

 

 

Com desdém jogarei minha luva

 

Bem na cara do mundo

 

E verei o colapso deste gigante pigmeu

 

Cuja queda não sufocará meu ardor

 

Então errarei divino e vitorioso

 

Pelas ruínas do mundo

 

E dando uma força ativa às minhas palavras

 

Me sentirei igual ao Criador (ver Isaías 14)

 

Eu sou tão cru como um deus e me encubro em trevas como ele

 

Ensino palavras que estão enredadas numa confusão diabólica e caótica

 

 

Há algo mais forte porém. Uma estranha confissão, tirada de um poema seu intitulado “O Violinista”, mas tarde declamado por ele e por seus seguidores, cujo tom sinistro realmente espanta:

 

 

Os vapores infernais elevam-se e enchem o meu cérebro

 

Até que eu enlouqueça e meu coração seja totalmente ligado

 

Vê está espada?

 

O príncipe das trevas

 

Vendeu-a pra mim.

 

 

Entendemos rebeldia adolescente. A perda da fé na idade adulta não é incomum. A indiferença do adulto contrasta muitas vezes com a bela devoção infantil. Marx porém, como Nietzche, fez da maturidade uma guerra à fé adolescente. O sistema de pensamento por ele criado só poderia subsistir com a morte de Deus e de tudo o que o Cristianismo ensinava.

 

Tendo sido cativo por treze anos em prisões comunistas, o pastor Romeno Richard Wumbrand escreveu sua famosa obra “Era Karl Marx um satanista?”. Ele lança a pergunta como tese, não como afirmação indubitável. Mas ele propõe muitas questões que procuram mostrar características estranhas de Marx, sua doutrina e os efeitos dela decorrentes, que vai muito além daquilo que seria esperado de uma filosofia.

 

Não queremos fazer um ataque pessoal irresponsável, pois sabemos da importância histórica de Marx. Existem testemunhos favoráveis a seu respeito. Mas este testemunho pertenceu a alguém que o conheceu já na idade madura e nos dá um quadro um tanto sinistro de sua pessoa:

 

“A impressão que ele me causou foi de alguém que possuía uma rara superioridade intelectual e ele era evidentemente um homem de uma personalidade excepcional. Se seu coração se igualasse ao seu intelecto, se ele possuísse tanto amor quanto possui ódio, eu atravessaria o fogo por ele (…) Mas é de se lamentar (…) que este homem com seu intelecto esplêndido não tivesse nobreza de alma. Estou convicto de que uma ambição pessoal perigosíssima consumiu todo o bem nele. Ele ri dos tolos que papagueiam seu catecismo proletários como ele ri dos comunistas e dos burgueses. As únicas pessoas que ele respeita são os aristocratas genuínos (…) A fim de evitar que eles governem, ele precisa de sua própria fonte de força que ele só pode encontrar no proletariado (…) Apesar de todas as suas garantias em contrário, a dominação pessoal era o objetivos de todos os seus esforços” (Testemunho pessoal de um tenente prussiano – David McLellan op. Cit)

 

O Marxismo hoje

 

A queda do muro de Berlim foi um símbolo histórico da queda do comunismo. A dicotomia mundial capitalismo-socialismo representada de modo tão vivo na divisão da cidade de Berlim chegava ao fim. O que viria depois era só conseqüência. A história mundial não caminhou na direção apontada por Marx, pois dizia que o socialismo e o comunismo faziam parte de um processo normal da evolução histórica da humanidade. Foi um duro golpe para uma ideologia que em setenta anos influenciara de forma ampla o pensamento de uma boa parte da comunidade das nações.

 

A atual declaração de um presidente “Pátria, socialismo ou morte” demonstra contudo que o marxismo não é um defunto consumido pela terra. Sua força espalhou-se por todo o mundo, mesmo nos lugares onde ele era condenado e criou raízes profundas no pensamento e na vida prática das pessoas. Sofreu transformações como qualquer outra ideologia, mas até mesmo o cristianismo foi por ele influenciado como é patente na Teologia da Libertação e no CMI.

 

O marxismo tem o vigor de um a religião e por isso ainda possui adeptos em várias camadas da sociedade, de humildes camponeses até intelectuais acadêmicos, de operários a estadistas. Assim como os que acreditam nas teorias da reencarnação e karma não precisam estar ligados à alguma religião, os que acreditam nas idéias marxistas não precisam estar em um partido político comunista ou afim.

 

O marxismo é o que se pode chamar de uma cosmologia, um sistema que procurava explicar totalmente a existência à sua volta, dando-lhe um sentido racional. E esta cosmologia, em diversos pontos, entra em choque direto com as Escrituras Sagradas. Reclama sua autoridade de supostas “leis de História” e exige uma aceitação incondicional de seu credo.

 

Por causa disto, não se pode dizer que o marxismo está morto. Suas idéias ainda são centrais para muitos partidos políticos, no mundo acadêmico e sem dúvida alguma Marx é citado em discussões e debate sobre diversos temas. Basta olhar na Web, em sites como vermelho.org / marxistas.org e domínio público.gov.br e ver que seus livros são recomendados e seu pensamento é claramente defendido. Quem acha que a devoção por Marx e suas teoria chegou ao fim basta ainda olhar o site recém lançado Marxismo Revolucionário Atual.(www.mra.org.br). Não será preciso dizer mais nada.

 

 

 

MARXISMO E ATEÍSMO

 

 

“Diz o néscio no seu coração: Não há Deus” (Salmo 14.1)

 

Marx não era apenas um ateu. Era inimigo do cristianismo. Ele não deixou a religião de lado, colocou-se contra ela. Uma coisa é não acreditar que Deus exista. Outra coisa é lutar por tirar do coração das pessoas a confiança nesse Deus. Ele adquiriu todo seu arsenal anti Deus com o falso teólogo Bruno Bauer e o filósofo Feuerbach. Deles se escreveu em seus tempos de estudante:  “O ateísmo de Marx certamente era de uma espécie extremamente militante.

 

Ruge escreveu a um amigo:

 

“Bruno Bauer, Karl Marx, Christiansen e Feuerbach estão formando uma nova “Montagne”(grupo mais radical da Revolução Francesa) e fazendo do ateísmo o seu lema. Deus, religião, imortalidade são derrubados de seu trono e o homem proclamado Deus.

 

E George Jung, um jovem próspero advogado de Colônia e partidário do movimento radical, escreveu a Ruge:

 

“Se Marx, Bruno Bauer e Feuerbach juntos fundarem uma revista teológico-filosófica, Deus faria bem em cercar-se de todos os seus anjos e se entregar à autopiedade, pois estes certamente o tirarão de seu céu…” (Karl Marx, Vida e Pensamento, David McLellan, Vozes, p. 54).

 

Não são as idéias políticas que nos preocupam, mas toda a ideologia acessória que a acompanhou. Todos os governos estabelecidos com base no marxismo, tivessem eles o nome de comunismo, socialismo ou outro qualquer, foram inimigos implacáveis da religião. Em sua dissertação de doutorado ele escreveria que a filosofia verdadeira tinha um ódio a todos os deuses que era “ seu próprio lema contra todos os deuses do céu e da terra que não reconhecem a autoconsciência do homem como a mais alta divindade. Não deverá haver nenhum outro deus além dela” (Karl Marx, Vida e Pensamento, David McLellan, Vozes, p. 49). Sua famosa frase de que a religião era o ópio do povo é suficiente para sintetizar sua posição sobre a mesma e de todos que de alguma forma o seguiram. As cruéis mortes e torturas sofridas pelos cristãos não passava de “guerra ao ópio”.

 

Escreveu um pastor que passou anos sendo torturado por sua fé:

 

Posso entender que os comunistas prendam padres e pastores como contra-revolucionários. Mas por que os padres foram forçados a dizer a missa sobre excrementos e urina, na prisão romena de Piteshti? Por que cristãos foram torturados para tomarem a comunhão com esses mesmos elementos? Por que a obscena zombaria da religião?” (Era Karl Marx um satanista ?, p. 47).

 

Sim, por quê? Por que após a Revolução Russa de 1917 baseada no marxismo mulheres cristãs recebiam 10 anos de prisão por causa de sua fé e prostitutas recebiam apenas 3 anos? Isto aconteceria se a doutrina marxista fosse apenas de ideologia política e econômica?

 

É muito fácil derivar o ódio ao cristianismo e às religiões em geral dos escritos de Karl Marx e Friederich Engels. Não é à toa que a sua obra mais famosa, verdadeiro texto-marco da história do comunismo contenha esta assustadora afirmação “O que porém pretende o comunismo é suprimir estas verdades eternas e extirpar a religião e a moral ao invés de lhe dar forma nova” (Manifesto do Partido Comunista, Marx/Engels, Universidade Popular, Global Editora, 1986, 6ª edição, p.35). A aplicação prática desse pensamento os mártires dos países comunistas e suas famílias conhecem muito bem.

 

 

MARXISMO E A TEORIA DA EVOLUÇÃO

 

“Após Ter lido A Origem das Espécies, de Charles Darwin, Marx escreveu uma carta ao seu amigo Lassalle na qual exulta porque Deus – ao menos nas ciências naturais – recebeu o golpe de misericórdia” (Marx e Engels, Diltz publ. Berlim 1972, vol 30 p. 578).

 

A criação era um empecilho para o pensamento marxista, uma vez que o seu “materialismo dialético” não pode sobreviver diante de um Deus e uma dimensão espiritual no universo.

 

Em sua própria formulação da história, Marx estabelece uma espécie de “evolução dos meios de produção”, seguindo uma ordem de Modo de produção da sociedade primitiva (coletivista) – Asiático – Escravista – Feudalismo – Capitalismo – Socialismo e Comunismo, sendo este último o grau mais avançado na escala de evolução.

 

Frederick Engels, que juntamente com Marx formulou toda a ideologia escreveu um livro intitulado “Sobre o Papel do Trabalho na Transformação do macaco em homem”. Este livro é uma aplicação direta das teorias de Darwin às teorias sobre o trabalho desenvolvidas pelo Marxismo. No discurso da morte de Marx, Engels diria que “assim como Darwin descobriu a lei da evolução da natureza orgânica, Marx descobriu a lei da evolução da História humana”.

 

Mesmo que Karl Marx tenha posteriormente criticado o darwinismo, este era um elemento essencial na sua doutrina. O homem não precisava mais de um Criador. Bastava milhões de anos para que compostos inorgânicos dessem origem ao ser humano. Os que mais tarde abraçariam o comunismo como o destino glorioso do mundo não hesitaria em assassinar milhares de pessoas que nada mais eram do que animais sofisticados. Sacrificar uma geração em favor das gerações futuras soava como algo altamente coerente.

 

MARXISMO E SEUS ATAQUES AOS FUNDAMENTOS DO CRISTIANISMO

 

porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. (Rm 1.21-22)

 

Sabemos que o ataque do comunismo não é exclusivo ao cristianismo mas a qualquer forma de religião, da mesma forma que se diz do “homem da iniqüidade” que ele se levantaria “contra tudo o que se chama Deus ou se adora” (2 Ts 2.4). “O nazismo odiava o Deus de Abraão; o comunismo odiava todo tipo de deus, principalmente aquele Deus”, escreveu Alain Besançon. Por ter nascido no seio do cristianismo e por ter se propagado em países onde este era maioria, os cristãos do mundo inteiro foram vítimas dessa ideologia. É bom ressaltar que não houve na História do século XX um único país que tenha adotado o marxismo e não tenha de alguma forma perseguido a Igreja. Por quê?

 

Deus, salvação, pecado, espírito eram conceitos negados por Marx e seus seguidores. Só existe a matéria e tudo o mais além disso eram invenções das classes dominantes para manter sua supremacia. Envenenado pelo ateísmo de seu tempo sua doutrina não se ateve apenas às questões políticas e econômicas. Para chegar a estas teve que formular uma concepção do mundo e da História que suplantasse o próprio Cristianismo e a história da salvação. Sua teoria filosófica era superior a tudo o que houve antes. O cristianismo não passava de uma ilusão criada pelas condições econômicas, um inimigo a ser vencido.

 

E Marx não aceitava concorrência. Assim escreveu Robert Heilbroner em sua História do Pensamento Econômico.

 

Ele era o homem mais intolerante, mais briguento do mundo e desde o começo demonstrou-se incapaz de pensar que alguém que não seguisse sua linha de raciocínio poderia estar certo”.

 

De uma certa forma os conceitos cristãos negados foram de alguma forma substituídos filosófica ou psicologicamente. Mas o sistema marxista nunca co-existiu pacificamente com o Cristianismo. Ou ele tentou destruí-lo ou transformá-lo, como ocorreu com a Teologia da Libertação, que nada mais foi do que um “Evangelho Segundo Marx”.

 

O problema do homem não era o pecado e sim sua condição social. A redenção não viria pela cruz, mas pela mudança da sociedade, pela do modo de produção do capitalismo para o socialismo e depois pelo comunismo. O conceito de um Deus pessoal que chegou até nós através da revelação judaico-cristã foi substituído pelo termo vago “Natureza” e depois “História”. Havia sim um futuro escatológico glorioso mas que não era o resultado de uma intervenção divina de qualquer natureza e sim do próprio processo histórico sendo o estágio de comunismo inevitável.

 

Para Marx, de qualquer forma, “a religião cristã é uma das mais imorais que existe” (Karl Marx, Vida e Pensamento, David McLellan, Vozes, p. 54). Como pois conciliar cristianismo e marxismo? Como pois acreditar em um convivência pacífica entre ambos? Andarão dois juntos se não estiverem de acordo (Am 3.3)? Eis a gênese pessoal daquilo que viria a se transformar em ódio estatal !!

 

 

MARXISMO E SUA DEVOÇÃO À HISTÓRIA

 

 

Ele muda os tempos e as estações; Ele remove os reis e estabelece os reis; é Ele quem dá a sabedoria aos sábios e o entendimento aos entendidos (Daniel 2.21).

 

Todo homem tem um deus. Rejeitar o Deus da Bíblia levará o homem à busca de um substituto. Friederich Nietzsche, o filósofo da morte de Deus, substituiu-o pelo que ele chamou de “super-homem”. Alestier Crowley, revoltado com o puritanismo de sua infância voltou-se para os deuses pagãos. O marxismo fez da História o seu deus. Nela ele justificou muito dos seus crimes e fundamentou suas opiniões. “A História estava a seu favor” diziam os comunistas.

 

Mesmo ateus confessos como o jornalista Janer Cristaldo foi explícito em demonstrar este aspecto “religioso da História” pertinente à doutrina marxista-comunista. Ele escreveu em seu artigo “Nós,os imorais”:

 

Não poucos articulistas trabalham com a falsa hipótese de que os comunistas são ateus. Nunca foram. Apenas trocaram o deus cristão por um outro. No caso, uma deusa, a História. Essa deusa teve uma encarnação humana, Stalin. Tanto que, em 1953, havia comunistas que não acreditavam em sua morte, afinal um deus não pode morrer. A fé absoluta na doutrina marxista era tal que um comunista sempre olhava com piedade para quem quer que dele discordasse: o coitado nada entendia do mundo. A Parusia proletária era dada como inelutável e a humanidade toda caminhava rumo ao comunismo.

 

Ao dizer que Marx havia descoberto “as leis de evolução da história humana” Engels estava sancionando um dos elementos principais da ideologia por eles criada. Já que não havia um Deus para sancionar suas opiniões e não podendo alegar algum tipo de “revelação” transcendente, eles procuraram justificar sua autoridade apelando para a História. Esta segundo eles possuía leis fixas e inexoráveis. Por conhecerem estas leis eles podiam tranqüilamente proferir o que Karl Popper chamou de “profecias históricas”, isto é, a previsão do futuro baseado nestas supostas leis. Popper denunciou esta distorção em uma conferencia de filosofia realizada em 1948:

 

“A revolução naturalista (…) contra Deus substituiu o nome de Deus pelo termo Natureza (…) Hegel e Marx, por sua vez, substituíram a deusa Natura pela deusa História (…) As ofensas contra Deus foram substituídas pelos atos de ‘criminosos que resistem em vão à marcha da História’ ”.

 

Ao invés do Deus pessoal que “muda os tempos e as estações”; e “remove os reis e estabelece os reis;” (Dn 2.21), Marx optou por conferir à História o domínio sobre todos os acontecimentos. Em sua adolescência ele já havia descrito a história como mestra das ciências. Ele agora se curvava perante ela e a tornava senhora de todos os destinos do mundo, seja lá o que se possa definir como História em seu pensamento.

 

Como todo bom pensador do século XIX, o conhecimento científico era o crivo, era o fundamento de todo conhecimento. Desdenhando os socialismos anteriores como sendo utópicos, Engel classificou o seu como “científico”. Isto lhe dava um certificado de verdade, como fizera o espiritismo e outras formas de pensamento. Sua base eram as ciências sociais e históricas às quais ele queria conferir uma precisão igual às das ciências exatas.

 

Embora a “Miséria do Historicismo” de Karl Popper seja todo ele um estudo de grande valor nesta questão, um trecho resume bem o pensamento que está por trás dessa ideologia.

 

A idéia de que deveria ser possível prever revoluções como se podem prever eclipses (…) é o fundamento do historicismo: o ponto de vista de que a evolução da humanidade segue um enredo e que se conseguirmos descobri-lo, teremos uma chave para nosso futuro.

 

O impacto desta visão foi bastante forte. Funcionou para Marx quase como um oráculo. Quando morou na Inglaterra ele passou vários anos prevendo uma crise no capitalismo que nunca chegava. Marcou diversas datas, até que depois de diversos logros de fato aconteceu. Seus seguidores conclamavam que o capitalismo era um moribundo e que em breve a revolução proletária atingiria o mundo todo. Tentar evitar isso era querer parar a roda da História, tal a inevitabilidade do processo.

 

Ao invés de reconhecer um Deus em cuja mão estão todas as coisas, Marx preferiu uma deusa que o frustrou completamente. Hoje, quase 200 anos depois, suas previsões soam como vã utopia. A classe operária está muito longe de ser o grupo místico imaginado por ele e as condições históricas estão longe de endossar suas previsões. Suas ácidas críticas talvez continuem em alta. Mas suas esperanças não passaram de mera ilusão.

 

 

Prelúdio para a segunda parte

 

O comunismo não queria apenas extinguir o cristianismo. Queria substituí-lo, tomar para si o papel de redentor da humanidade. Não poucos pensadores perceberam essa proximidade entre marxismo e religião. Mais do que uma filosofia, ele é uma crença baseada na capacidade do homem em resolver todos os seus problemas e na História como uma lei inexorável que sanciona o comunismo como sistema mundial.

 

Até aqui pudemos ver sua tentativa de extinguir a fé teísta e cristã dos corações. Ainda nos resta ver suas propostas ousadas, sua tentativa de colocar-se como a panacéia universal que há de trazer felicidade eterna. Quem pensa que sabe o que verdadeiramente o marxismo/comunismo deve continuar acompanhando a segunda parte dessa matéria.

 

 

 

PROLETARIADO – A IGREJA DE MARX

 

Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há Salvador. (Isaías 43.11)

 

A luta de classes era para Marx o ponto central da História. Senhores e escravos, camponeses e nobres, burgueses e proletários. Para ele estes últimos eram mais do que uma simples classe social. Eles eram a representação concreta de um grupo especial que havia de ser o grande instrumento para redenção do mundo. Assim como no Antigo Testamento Israel era o povo eleito para levar os propósitos de Deus adiante e no Novo Testamento a Igreja era o “Corpo de Cristo” que recebera dele sua missão, os proletários eram o grande fenômeno histórico para efetivar as previsões do comunismo.

 

Ao lermos sua descrição sobre o proletariado é fácil perceber que ele lhe conferiu um papel quase místico. Cercou-o de uma auréola de perfeição e atribuiu-lhe um papel redentor que lembra em muito o servo sofredor do livro de Isaías, cuja hermenêutica judaica sempre identificou com Israel:

 

…na formação de uma classe com vínculos radicais, uma classe na sociedade civil, a formação de um grupo social que é a dissolução de todos os grupos sociais, a formação de uma esfera que tem caráter universal por causa de seus sofrimentos universais e não alega nenhum direito particular, porque é o objeto de nenhuma injustiça particular mas de uma injustiça geral. Esta classe não pode mais alegar um status histórico mas apenas humano. Ela não está em oposição unilateral às conseqüências do regime político alemão; está em oposição total aos seus pressupostos. É finalmente um esfera que não pode emancipar-se a si mesma sem se emancipar de todas as outras esferas da sociedade e assim emancipar estas mesmas outras esferas. Numa palavra, é a perda completa de humanidade e isso só pode ser recuperado por uma redenção completa da humanidade. Esta dissolução da sociedade, como uma classe particular, é o proletariado” Karl Marx, Vida e Pensamento, David MacLellan, Vozes, p. 110).

 

 

O teólogo católico Jacques Doyon que em seu livro “Cristologia para o nosso tempo” percebeu esse atributo redentor atribuído por Marx à classe operária. Ele escreveu:

 

O agente desta liberdade, o “Messias” libertador, sempre conforme Marx, é o trabalhador mesmo, tornando-se consciente do seu estado de alienação e não contando senão consigo mesmo para se libertar. E isso não se conseguirá a não ser pela ação violenta, que rompe com uma ordem social desumana para a substituir por uma sociedade comunista, onde não existe diferença entre as classes sociais, mas onde todos serão uns para com os outros, irmãos e camaradas (…) em lugar do Messias divino, o redentor, conforme Marx é o proletariado.

 

 

Ainda Alain Besançon comenta sobre este fato:

 

Essa ideologia propõe um mediador e um redentor. O “proletariado”, o “explorado”, aquele que não tem nada, vai abrir ao mundo a porta da libertação. Ele é para as outras classes o que Israel é para as nações, o que o “remanescente de Israel” é para Israel. Ele é o servo do Senhor de Isaías que sofre e é o Cristo. Ele é o fruto da história naturalizada como o outro é da sagrada.

 

Havendo rejeitado Deus, havendo rejeitado a Igreja e por fim, havendo rejeitado a Cristo, Marx precisava de um outro redentor. Para ele “os princípios sociais do cristianismo são encobertos e hipócritas enquanto o proletariado é revolucionário” (David Mclellan, op. Cit).

 

Sua esperança estava neste grupo ou pelo menos assim ele dizia. Seu deus era uma classe social capaz de transformar o mundo. Para ele valem as palavras de Jeremias “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jr 17.5).

 

 

 

O MARXISMO E A REDENÇÃO DO UNIVERSO

 

 

Os filósofos têm interpretado o mundo de várias maneiras. O que importa é mudá-lo. Karl Marx

 

 

Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão. (Is 65.17)

 

A frase de Karl Marx em epígrafe é sem dúvida muito bonita. Na verdade possui um conteúdo ideológico tão grandioso que incendiou o mundo. Toda uma geração sacrificou seus melhores anos por este “evangelho”. Os jovens queriam ser os transformadores do seu tempo, pois agora conheciam a receita. Basta lembrar o Exército Vermelho de Mao Tse Tung na revolução cultural de 1959 . Jovens seguiam matando intelectuais e burgueses crendo que através disto estariam destruindo a velha ordem e implantando a nova. No Camboja, onde não havia armas de fogo suficiente, a carnificina era feita com facas, machados e porretes.

 

Não entendiam isto como um crime, mas como o caminho mais curto e necessário para “mudar o mundo”, que não aceitava as proposições de sua doutrina. Não estamos falando de especulações e sim de História real e bem documentada.

 

A beleza de uma frase nem sempre é proporcional à sua verdade. A retórica pode empolgar, mas isto não significa que sempre conduzirá pelo caminho mais correto. Não há nada errado em querer melhorar as condições de vidas das pessoas e lutar por uma situação mais digna. O comunismo, porém falava em redenção em sentido mais amplo, cosmológico em seu alcance.

 

A pergunta é: Pode o comunismo/marxismo ou qualquer outra doutrina transformar o mundo? Em que sentido? Até que ponto? As pretensões de Marx iam muito além de meras pretensões políticas, econômicas ou sociais mas avançavam a um grau que poderíamos descrever como religioso, redentor, salvador.

 

 

O comunismo é a abolição positiva da propriedade privada e por conseguinte da auto-alienação humana e, portanto, a reapropriação real da essência humana pelo e para o homem… É a solução genuína do antagonismo entre homem e natureza e entre homem e homem. Ele é a solução verdadeira da luta entre existência e essência, entre objetivação e auto-afirmação, entre liberdade e necessidade, entre indivíduo e espécie. É a solução do enigma da história e sabe que há de ser esta solução” (Karl Marx, Vida e Pensamento, David MacLellan, Vozes, p. 133).

 

Em seu famoso Manifesto Comunista, editado juntamente com Friederich Engels ele afirmou utopicamente, sobre a implantação do Comunismo no mundo:

 

Na proporção em que a exploração de um indivíduo por outro termina, a exploração de uma nação por outra também terminará. Na proporção em que o antagonismo entre classes dentro da nação desaparece, a hostilidade de uma nação por outra terminará”.

 

Quem não percebe nessa afirmação uma tentativa de concretizar a promessa bíblica de paz universal profetizada em Isaías 2.4?

 

E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra”.

 

O marxismo é a religião do homem, não apenas se auto redimindo como nos sistemas religiosos em geral mas redimindo tudo: o homem, as relações entre os homens, a relação entre o homem e a natureza.

 

Sim, o universo precisa de uma transformação, de uma redenção. Sabemos que o pecado a tudo contaminou, a tudo corrompeu e degenerou. Mas o caminho verdadeiro da redenção não vem através de alguma filosofia, ideologia ou ação humana, mas através da ação divina que passa pela cruz e irrompe na ressurreição. Em Romanos 8.19 –23:

 

Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora; e não só ela, mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoração, a saber, a redenção do nosso corpo.

 

 

O Novo Testamento prega uma redenção aguardada, iniciada na cruz e concretizada no Cristo ressuscitado e que se efetivará universalmente no futuro. Tudo isso através do poder de Deus e não como fruto de qualquer ação humana. Karl Marx queria rivalizar com a revelação bíblica através de sua cosmologia. Como um deus ele desejava transformar o mundo sim, mas à imagem e semelhança daquilo que foi idealizado por ele, à parte do Deus redentor.

 

Quem acredita que os acontecimentos do final da década de 80 puseram um fim em todas as pretensões comunistas se engana, pois sua força vai muita além do que propostas políticas. O Curso Inicial de Comunismo Científico, foi editado em 1985, em Cuba, pelo Partido Comunista Cubano, através da “Editorial de Ciências Sociales La Habana”. Um calhamaço de 369 páginas, cópia de um velho manual do Partido Comunista da União Soviética.

 

Como vemos foi utilizado não quando o comunismo/marxismo se encontrava no auge mas quanto em todo o mundo a estrutura criada ao seu redor já apresentava graves sinais de deterioração. Percebemos pelo texto abaixo não a força de uma filosofia mas algo tão intenso quanto uma religião, inspirando em seus seguidores uma fé de fazer inveja às grandes religiões mundiais e mesmo à muitas religiões de cunho missionário:

 

A classe operária soviética em aliança com o campesinato e sob a direção do Partido Comunista, construiu o socialismo desenvolvido e realiza atualmente a construção do comunismo (…) Os ganhos do socialismo são grandes e reconhecidos em todo o mundo. O comunismo abre perspectivas ainda maiores, pois é a fase superior da nova sociedade. O comunismo garantirá aos povos da Terra a paz eterna, e os homens serão libertados para sempre da intranqüilidade por seu futuro e o de seus filhos. O comunismo confirmará o Reino do Trabalho na Terra, fará o trabalho livre e criador para todos e o converterá na primeira necessidade vital do homem e em fonte de sua alegria e inspiração. O comunismo criará o verdadeiro Reino da Liberdade do homem como trabalhador, como ser social, como criador e pensador, possuidor das poderosas forças sociais e da natureza. O comunismo garantirá a Igualdade e Fraternidade entre todos os homens, já que todos serão trabalhadores que se desempenharão plenamente de acordo com suas capacidades, e na mesma medida serão satisfeitas suas necessidades. O homem será outro, companheiro e irmão no mais elevado sentido da palavra. O comunismo levará a todos os homens a verdadeira Felicidade, a confiança no belo futuro e a trabalhar criativamente para que seja de grande utilidade à humanidade e a si mesmo, e dará a possibilidade de aperfeiçoar infinitamente suas qualidades físicas e intelectuais. O comunismo é o futuro luminoso de toda a humanidade”.

 

É difícil ler estas palavras sem reconhecer nelas um sentido religioso, redentor e mesmo profético. Marx não as escreveu é verdade. Nem mesmo matou uma única pessoa por causa daquilo que acreditava ser verdade. Este texto todavia não está muito longe de outros textos de sua autoria já demonstrados. É fácil traçar paralelos entre as proposições de Marx e aquelas originadas à parir de seus escritos. Se “pelos seus frutos os conhecereis” como disse Jesus então conhecemos muito bem o autor de O Capital.

 

“A salvação marxista-leninista é otimista. Ela é comparável à salvação anunciada pela profecia bíblica. Seu objetivo é superar a natureza como ela é, o homem como ele é; chegar a um tempo messiânico de paz e justiça, em que o lobo conviva com o cordeiro, em que as disciplinas e frustrações do casamento, da família, da propriedade, do direito, da penúria sejam abolidas. Finalmente é a própria morte que é vencida: houve devaneios sobre esse tema no começo da revolução bolchevique, alimentados por certo Fedorov, um quimérico da ressurreição científica dos corpos e da imortalidade. O “ homem novo”, produto do socialismo, é um tipo de corpo gloriosos tal como a profecia bíblica entrevê. E a sua salvação está nas mãos do homem. Ela é obtida por meios políticos”. (A infelicidade do século, Alain Besançon, Bertrand Brasil, 2000, RJ)

 

 

Produzir o homem novo tem sido uma das propostas do socialismo. Che Guevara, o ícone do comunismo mundial muitas vezes se utilizou desta expressão como o ideal a ser alcançado. Fazer o resgate do homem que se encontra “perdido” em sua condição social e torná-lo outro. Auto-redenção, mas não só ao nível pessoal e sim global através da mudança da estrutura que rodeia o homem. É uma forma de auto-salvação também “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele. (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre), (Sl 49.7,8)

 

O pensamento marxista (…) propõe o caminho para atingir uma verdadeira existência humana e nesse sentido projeta a formação de um homem novo, um indivíduo superior, plenamente antecipado e desenvolvido multifacetalmente (sic) em todos os seus aspectos, isto é, aperfeiçoado espiritual, moral, físico e esteticamente. (El marxismo y la formación del hombre nuevo, Dra. Yolanda Corujo Vallejo, Profesora Titular. Universidad de Oriente. Santiago de Cuba)

 

Onde quer o marxismo se manifeste este intenção de criar o novo homem está presente. O que seria este “novo homem” é difícil de dizer, pois é uma noção muito imprecisa dentro do conceito comunista.

 

FAR-SE-Á intensa difusão da teoria socialista firmada no materialismo dialético, a fim de enraizar a cultura avançada entre as massas e consolidar o sistema do socialismo científico. A luta constante contra a ideologia burguesa, individualista e mesquinha, é fundamental para forjar culturalmente o novo homem e tornar definitivamente vitoriosos os ideais do proletariado revolucionário. (Programa de um partido comunista – http://www.vermelho.org.br/pcdob/programa/default.asp)

 

 

Contudo, sabemos muito bem que ela foi tomada do próprio Novo Testamento, uma expressão cristã a qual o comunismo sempre procurou roubar. Isto porque o novo homem, seja no sentido individual, seja no sentido coletivo já foi criado, quando Cristo morreu na cruz e formou uma nova humanidade a partir da união de judeus e gentios que crêem em Nele.

 

Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.(Ef 2.14-16)

 

Ou ainda podemos citar 2 Coríntios 5.17

 

Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.

 

 

 

O MILENARISMO

 

O que é milenarismo? Não falamos aqui simplesmente da crença de um reinado literal de Cristo sobre a terra por mil anos, conforme descrito em Apocalipse 20.1-6. Esta fundamenta-se em uma ação divina trazendo o Reino de Deus para os homens. Falamos do milenarismo como um sistema humano perfeito, implantado na terra pelo desejo e ação humanos. Hitler dizia que o Terceiro Reich iria durar mil anos. O comunismo, como vimos, mantinha esta mesma esperança. O problema é quando o homem se acha capaz de fazer o que só Deus pode fazer.

 

 

O milenarismo está para a Vinda do Reino de Deus, assim como a auto-salvação está para a graça. No primeiro caso o homem é seu próprio salvador enquanto no segundo caso é Deus o agente. No caso do marxismo Deus foi completamente expulso de qualquer participação do mundo vindouro. No seu lugar o agente de transformação é o proletariado, é a História, é o próprio homem. Ao invés da salvação de Deus, uma salvação humana é pregada e ações são tomadas contra aqueles que se opõe.

 

A idéia do futuro, Marx a toma do passado. Ele ensinava que o relacionamento dos homens entre si e dos homens com a natureza fora perfeito algum dia. Era o que ele chamava de “comuna primitiva”. Este era o seu Éden, seu paraíso perdido que fora perdido pela maior pecado que existe, segundo o marxismo – a propriedade privada. “Por que a infância da sociedade humana, onde ela atingiu o seu mais belo desenvolvimento, não exerceria um atrativo eterno como uma idade que nunca voltará?” (David MacLellan, op. Cit. ) Era este estágio inicial a base para o glorioso futuro do mundo sob o comunismo. Como disse Besançon No momento inicial era a comuna primitiva; no momento final será o comunismo, e hoje é o momento de luta entre os dois princípios. (Op. Cit.). Uma imitação humana das bases da Teologia Bíblica.

 

 

Alguém resumiu a salvação messiânica-marxista em quatro pontos, que fornecem uma boa compreensão do que seja o milenarismo comunista:

(I)               a humanidade pecadora não será salva por Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por ela mesma;

(II)            o método para alcançar a redenção consiste em matar ou pelo menos subjugar todos os maus, isto é, os ricos;

(III)         os pobres são inocentes e puros, mas não entendem seu lugar no projeto da salvação e por isso têm de colocar-se sob as ordens de uma elite dirigente, os “santos”; o

(IV)         morticínio redentor gerará não somente a melhor distribuição das riquezas, mas a eliminação do mal e do pecado, o advento de uma nova humanidade.

 

Todavia, a salvação, seja em nível pessoal, coletivo ou cósmico, é e será um ato do Deus Criador. É esta redenção que aguardamos.

 

Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor, E envie ele a Jesus Cristo, que já dantes vos foi pregado. O qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio.(At 3,19-21)

 

Não podemos de modo algum acreditar que algum tipo de “Reino de Deus” possa ser levado a efeito pelo homem, por mais belas que possam parecer estas aspirações. Desejamos sim a redenção. Nossa e do universo. Mas esta só será possível pela graça e poder de Deus.

 

O conceito de progresso, entendido no sentido de uma transformação em profundidade do ser humano, sob a ação da história ou de uma vontade político-histórica, não pode ser aceito, pois ele faz depender da ação política uma transformação que , segundo a Bíblia, só se deve a graça divina. Quando o que só é possível pela graça divina se torna o objetivo da ação humana, esta visa realizar o impossível. (Alain Besançon, Op. Cit)

 

 

 

 

MARXISMO E DEVOÇÃO RELIGIOSA

 

 

O meu Santo dos Santos foi feito em pedaços e novos deuses tiveram que ser instalados – Karl Marx, 10 de Novembro de 1837

 

 

Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm águas (Jr 2.13)

 

 

Entre outros autores, Vilfredo Pareto há muito tempo, em uma de suas mais desconhecidas e importantes obras, Les Systemes Socialistes (Giard, 1926, principalmente vol II, p. 332 em diante), revelou de maneira enérgica o caráter religiosos do marxismo. Pareto, depois de mostrar as contradições e as inanidades de O Capital, argumenta que o Marxismo prospera não como filosofia da história, nem como sociologia, nem como teoria econômica, e sim como forma de religião. (MARXISMO E RELIGIÃO – HEREALDO BARBUY – DOMINUS EDITORA 1963 )

 

Talvez isto espante a muitos. Imaginar que um sistema político de caráter ateísta possa ter algo haver com religião parece demasiadamente absurdo, um paradoxo. Mas não é assim. Diversos foram os aqueles que perceberam essa afinidade, essa característica religiosa do marxismo. Pensadores e teólogos como Arnold Toynbee, Jacques Maritain e Rodolfo Bultmann entre outros descreveram o marxismo como um messianismo e uma heresia cristã.

 

Albert Camus, que muito pouco tinha de cristão, foi um desses pensadores. Ele escreveria em O Homem Revoltado:

 

 

O ateísmo marxista é absoluto. No entanto, ele restabelece o ser supremo ao nível do homem. A crítica da religião chega a esta doutrina na qual o homem é para o homem o ser supremo. Sob este ângulo, o socialismo é um empreendimento de divinização do homem e adquiriu certas características das religiões tradicionais”.

 

 

 

 

Ainda um outro autor, escrevendo sobre economia faria um paralelo entre Marx e Engels com os líderes religiosos.

 

Caso tivéssemos que julgar sob a luz da devoção de conceitos religiosos, diríamos que Marx poderia ser considerado um líder religioso do mesmo nível de Cristo ou Maomé, e Engels como uma espécie de São Paulo ou São João. No Instituto Marx-Engels, em Moscou, eruditos debruçam-se sobre seus trabalhos com a mesma idolatria que ridicularizam nos museus anti-religiosos que há por lá; mas enquanto Marx e Engels eram canonizados na Rússia, eram crucificados na maior parte do mundo.

 

E ele continua ainda de forma mais contundente.

 

Dirigindo-se ao operário abstrato, internacional, independentemente de sua língua, raça, religião, família, e de si mesmo, Marx aboliu a realidade da Nação mas por outro lado substancializou a idéia de Humanidade. O marxismo tornou-se desde então como todas as heresias e contra facções do Cristianismo, um credo religioso de salvação internacional. Não se trata de um sistema científico mas duma religião que quer salvar o homem como gênero abstrato. É secundária portanto a verdade ou mentira científica do marxismo, como filosofia, como sociologia, economia ou método. (…) Se o marxismo vivesse como doutrina científica, como viveu por exemplo a teoria da geração espontânea, não poderia sobreviver a contestação os fatos e das novas perspectivas das ciências. Mas vive como esperança e como fé. Na medida em que a civilização ocidental se propaga, nivelando e sepultando por toda parte as culturas autóctones e levando consigo os dados do cristianismo, na mesma forma o marxismo também se propaga como a versão herética e revoltada dos ideais cristãos. – (Robert Heilbroner, História do Pensamento Econômico, Nova Cultural).

 

Encarar o marxismo como uma forma de religião não foi algo realizado somente por não-comunistas. Alguns teóricos marxistas também perceberam esse elemento religioso presente na ideologia comunista. Assim escreve José Carlos Mariátegui:

 

A burguesia entretém-se numa crítica racionalista do método, da teoria, da técnica dos revolucionários. Que incompreensão! A força dos revolucionários não reside na sua ciência e sim na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. É uma força religiosa, mística, espiritual. Gonzáles Prada se iludia (…) ao nos pregar anti-religiosidade. Hoje conhecemos muito mais do que na sua época sobre religião. (…) Sabemos que uma revolução é sempre religiosa. A palavra religião tem um novo valor, um novo sentido. Serve para designar alguma coisa além de um rito ou uma igreja. Não importa que os soviéticos escrevam nos seus panfletos propagandísticos que “a religião é o ópio dos povos”. O comunismo é essencialmente religioso. (José Carlos Mariátegui, Sete ensaios sobre a realidade peruana (1928), Lima, Amauta, 1976)

 

 

 

O terrível perigo das idéias erradas

 

Reiteramos que nosso alvo não é fazer qualquer crítica política. Se em algum momento nos utilizamos de alguma citação que esteja relacionada a isto, foi apenas incidental. Estamos plenamente cientes de que os crimes cometidos contra cristãos e pessoas inocentes não podem generalizadamente ser atribuído a qualquer um que simpatize com as idéias de Marx (Nota do Editor: discordamos dessa posição, pois cada um que se aproxima das idéias marxistas sabendo que é fundamento dos mais de 250 milhões de assassinatos de inocentes desde que foram criadas, é também cúmplice dos mesmos homicídios por não se contrapor a eles rejeitando tais ideais).

 

Apenas queremos mostrar que os conceitos marxistas apresentam inúmeros pontos de divergência com o cristianismo. Essas divergências são muito patentes, pois onde quer que o marxismo tenha sido semeado, ele buscou destruir o cristianismo em sua prática ou em sua essência. Qualquer tentativa de unir as ideologias será um logro. As divergências são muitas e são essenciais. Deixemos que o próprio Marx fale.

 

Por causa desta divergência devemos levar as obras teóricas o mais possível a sério. Estamos firmemente convencidos de que não é o esforço prático, mas antes a explicação teórica das idéias comunistas que é o perigo real. Tentativas práticas perigosas, mesmo aquelas em larga escala, podem ser respondidas com canhão. Mas as idéias conseguidas por nossa inteligência, incorporadas ao nosso modo de ver, e forjadas em nossa consciência, são correntes que nós mesmos não podemos romper sem partir nossos corações; elas são demônios que não podemos vencer sem nos submetermos a eles. (David MacLellan, op. Cit.)

 

 

Se um pouco de fermento leveda toda a massa (1 Co 5.6), imagine muito fermento o que não fará? Deus nos conceda sabedoria e graça para discernimos as sutilezas enganadoras, as propostas ilusórias. Sabemos que muitos tomaram o caminho do marxismo idealizando ajudar e servir ao próximo. Porém, de nada vale o ímpeto quando se corre pela estrada errada. Não basta o zelo. É preciso também o entendimento.

 

BIBLIOGRAFIA

BESANÇON, Alain. A Infelicidade do Século. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

ODOYON, Jacques. Cristologia para o nosso tempo. São Paulol: Edições Paulinas, 1970

MACLELLAN, David. Karl Marx – Vida e Pensamento. Petrópolis: Vozes, 1990.

HEILBRONER, ROBERT. História do Pensamento Econômico. São Paulo: Nova Cultural, 1992

HEILBRONER, ROBERT. O Futuro Como História. Rio de Janeiro: Zahar, 1963

BARBUY, Heraldo. Marxismo e Religião. Rio de Janeiro: Dominus Editora, 1963.

WUMBRAND, Richard. Era Karl Marx um Satanista? Rio de Janeiro: Voz dos Mártires, 1980

MARX, Karl e ENGELS, Friederich. O Manifesto do Partido Comunista, Rio de Janeiro: Global Editora, 1986.

POPPER, Karl. A Miséria do Historicismo. São Paulo: Cultrix, EDUSP, 1980

 

http://despertardagraca.blogspot.com/2010/04/o-marxismo-na-visao-de-um-apologista.html – com edição de texto pelo autor deste blog.

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