Aquele fruto fez o quê?

Os valores humanos têm mudado drasticamente nos últimos tempos e a maioria das pessoas não faz a mínima idéia do porquê. Eu também fiquei intrigado por algum tempo, embora soubesse das palavras proféticas sobre os dias que antecedem o retorno do Senhor. Já comentei algumas coisas neste blog, mas ainda não consegui chegar ao ponto de explicar algo que mostrasse o caminho que os eventos devem seguir.

Confesso que não é tarefa fácil, e nem pretendo ser a última palavra sobre o assunto porque não sou nem a primeira, mas espero contribuir para a compreensão desse todo que é a vida do homem sobre a terra, a origem, os meios e os fins aos irmãos que ainda não entendem bem o que ocorre hoje. Antes, porém, preciso falar um pouco sobre filosofia e história para podermos chegar ao ponto no qual a história bíblica se completa.

Filosofia, segundo o filósofo Olavo de Carvalho, é a unidade do conhecimento na unidade da consciência. Parece complicado mas não é. A unidade a que ele se refere não é a menor parte de um todo como p.ex., uma unidade métrica ou um bit dentro de um byte (1 byte = 8 bits). A unidade mencionada pelo filósofo trata-se do todo como conhecimento unificado, total. Unidade neste caso refere-se, então, à unificação do conhecimento no todo da consciência humana. De fato, com o tempo e o estudo, chegamos à compreensão de que todo o conhecimento humano é interligado, formando um todo complexo que deveria ser passado aos estudantes para que tivessem a verdadeira dimensão do universo onde vivem. Um exemplo simples de unidade, divisível apenas para compreensão, está na Bíblia e é usado por Paulo em 1Ts.5:23:

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo.”

O homem é um ser indivisível exceto pela Palavra de Deus. Não vemos espírito, alma e corpo andando separadamente pelas ruas. Vemos o homem por inteiro e, embora não vejamos sua alma nem seu espírito, sabemos que algo mais está no homem, pois ele pensa, reflete, entende, muda causas e efeitos na natureza e muito mais. Esse todo chamado homem tem estas três porções que podem ser compreendidas, embora não divididas enquanto o homem vive neste mundo. Este é um simples exemplo do todo do conhecimento a que me refiro aqui.

A unidade de consciência é a totalidade do ser humano, compreendidos o espírito, a alma e o corpo, os quais são o homem completo, o corpo e a alma vivente que o Senhor criou. Contudo, a consciência não se situa apenas no corpo, nem apenas na mente, nem somente no espírito, mas é a manifestação do que transcende ao corpo estando nele – a porção física do homem – e é sua parte imaterial, não física, compreendida pela alma e pelo espírito.

A Bíblia nos mostra que a parte imaterial do homem é como uma moeda de duas faces. A alma está voltada para as coisas materiais e compreende o mundo físico através dos cinco sentidos do corpo físico. É a alma que traduz este mundo físico ao espírito humano, o qual é a outra face da mesma moeda e está voltado para as coisas espirituais. O que é captado pelo espírito humano é traduzido para o homem através da alma, em sentido inverso. O espírito humano, depois da queda, perdeu o contato com Deus, mas ainda está ativo no corpo do homem por um tempo limitado (veja Gn.6:3). Os salvos têm seus espíritos renovados pela ação do Espírito de Deus e estão em contato com Deus, embora também estejam limitados no tempo. Digo que a consciência transcende ao corpo e vou tentar explicar o que isso significa para que não pairem dúvidas sobre o assunto. Não se trata de misticismo barato, mas de algo sério e real.

Para isso, vou usar um livro qualquer e dois modos de entendê-lo. Se perguntarmos à ciência o que é aquele livro, ela poderá dizer-nos sobre a gramatura do papel, o tipo de tinta usada na impressão, sua composição química, qual espécie de planta foi usada para produzir aquele papel, qual a massa do livro, o tamanho das folhas, da capa, volume além de outras coisas que a ciência pode informar a respeito daquele objeto. No entanto, se perguntarmos qual o conteúdo do livro, ela não poderá dizer absolutamente nada. O motivo é que o conteúdo do livro transcende ao livro em si e só o homem o poderá compreender. O assunto é algo não físico, é imaterial. Não há método científico algum capaz por si mesmo de nos informar qual o assunto do livro: só o ser humano é capaz de fazer isso. O homem terá que saber os símbolos da escrita e o que cada palavra significa para, então, montar o quebra-cabeças da gramática e desvendar o assunto do livro, que é sua porção transcendente. Em linhas gerais, isso é transcendência: algo que vai além. O imaterial e o físico só são compreendidos pelo imaterial – o pensamento humano.

Falei tudo isso sobre a consciência, que é a compreensão de existir e de atualizar constantemente sujeito (aquele que entende o assunto do livro) e objeto (o livro), para falar da história do pensamento e por que esse pensamento mudou tanto ao ponto de vermos tamanha mudança de valores. Vou pular etapas e tratar do começo e do estágio atual, para não cansar o leitor.

O homem, nos tempos antigos entendia que as coisas naturais poderiam ser compreendidas pela razão, pelo raciocínio humano. Mas este homem antigo também entendia que as coisas sobrenaturais poderiam ser racionalizadas. Isso significa que o homem pode compreender Deus conforme Ele se revelou através dos escritores bíblicos, como também entender algo da criação observando o universo criado. Isso é algo notório devido ao fato de vermos diversas religiões pelo mundo, as quais têm muitos pontos em comum com a religião cristã. Isto nos mostra que o homem pode compreender muita coisa usando a racionalidade que Deus lhe deu. OBS: Não confundir racionalidade com racionalismo científico. Racionalidade é a condição que o homem tem de entender pelo raciocínio. Racionalismo científico é o movimento filosófico que ensina serem todas as coisas compreendidas apenas pelo método científico, e é um pensamento incompleto pois não pode compreender o transcendente imaterial com métodos físicos de estudo.

Muitas verdades universais foram entendidas pelos homens ainda que jamais tivessem conhecimento da revelação bíblica, por isso essas religiões contém muitos pontos em comum com a palavra revelada por Deus.

Lembro-me de um amigo, adepto das filosofias orientais, que, quando me ouvia falar de Cristo, respondia: “Cada um pode ver um mesmo objeto de formas diferentes, pois pode estar em um lugar diferente e só pode ver o objeto de um jeito próprio, mas é o mesmo objeto”. Ele referia-se ao fato de haver pontos em comum em várias manifestações religiosas pelo mundo.

Tenho que concordar com essa afirmação, mas, ao mesmo tempo, perguntar o seguinte: “Se todos esses homens estão vendo o mesmo objeto, então, quando juntarmos todas as visões destes homens, é obrigatório que consigamos montar aquele objeto inteiramente igual ao que realmente era enquanto o viam. Caso não seja possível, então, esses homens observaram objetos diferentes e não o mesmo objeto”.

É o mesmo caso dos quatro evangelhos. Cada evangelista viu a vida de Jesus de uma forma, mas, quando juntamos todos os evangelhos, vemos o mesmo Jesus, a mesma obra, o mesmo Deus encarnado. Não há um Jesus diferente para cada evangelista, nem uma obra diferente, nem uma doutrina diferente, nem um pensamento diferente. Embora todos O tenham visto de um jeito particular, quando juntamos as particularidades chegamos ao todo que é o mesmo Jesus Cristo descrito desde os profetas. A esse todo chamaremos universal, enquanto que o modo de ver de cada um dos evangelistas chamaremos de particulares. Isso facilitará o restante.

O homem compreendia que havia um ser superior, inteligente, capaz de criar todas as coisas e que lhe dera capacidade para compreendê-las também. Assim, encontravam sentido em tudo e tudo era possível de ser investigado e compreendido. Embora isso fosse possível, sabiam que Deus e o próprio homem não faziam parte integrante da natureza criada como se pertencessem a uma máquina que funciona sozinha e cujo movimento fosse pré-determinado pelo criador, mas estavam acima dela: eram capazes de alterar causas e efeitos e de entender o que estava abaixo deles. No entanto, os homens não poderiam explicar o que estava acima deles: Deus. Mas, de qualquer forma, poderiam entender o que Deus lhes revelasse sobre Si mesmo. Para eles havia dois níveis de pensamento(1):

GRAÇA, O NÍVEL SUPERIOR – UNIVERSAL

DEUS O CRIADOR; O CÉU E AS COISAS CELESTES; O INVISÍVEL E SUA INFLUÊNCIA NA TERRA; A ALMA HUMANA; A UNIDADE

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NATUREZA, O NÍVEL INFERIOR – PARTICULAR

A CRIAÇÃO; A TERRA E AS COISAS TERRENAS; O VISÍVEL E O QUE FAZEM A NATUREZA E O HOMEM NA TERRA; O CORPO HUMANO; A DIVERSIDADE

A natureza não era autônoma, como se fosse uma máquina que funcionasse sozinha depois de ligada, mas dependia da força e do poder do Criador para existir e continuar. Tudo estava interligado desde cima pelo poder do Criador.

Com o tempo, esse tipo de pensamento foi sendo modificado e o homem chegou ao pensamento atual (recomendo a leitura do livro abaixo indicado para que o leitor possa compreender a modificação completa ao longo da história. É um livro pequeno, fácil de ler, que completa as etapas que pulei aqui). No pensamento atual, vemos os níveis da seguinte forma:

SUPERIOR: Subjetivas, particulares, individuais – religião, fé

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INFERIOR: Objetivas, públicas, coletivas – ciência, conhecimento

O quê mudou? Tudo! O homem foi colocado no lugar de Deus no nível superior e todo o conhecimento, que antes era unificado no inferior, tornou-se multifacetado e sem ligação alguma entre suas mais variadas partes. Isso trouxe um problema sério ao homem, pois, tudo perdeu o sentido do universal que atingia o particular e tornou-se apenas um mero objeto descartável, inclusive o próprio homem. Sendo o homem o centro do pensamento, tudo pode variar porque cada homem é diferente dos demais. Essa é a causa do relativismo que vemos hoje, inclusive no campo moral. Com isso, a moral, que era proveniente do Criador e atingia suas criaturas, tornou-se algo relativo ao próprio homem, ou seja, cada homem tem sua própria moral e isso não atinge mais ninguém senão a ele mesmo individualmente – é subjetivo e não mais público. O homem agora é o universal enquanto que tudo o mais é particular.

Mas como cada homem é diferente de seu semelhante, o universal é um completo caos de particulares que chamam para si mesmos a autoridade para ditar as regras. Como sempre, vence o mais forte, o mais esperto, o mais capacitado. Isso também é influência do pensamento de Charles Darwin, para quem a vida evoluiu e mudou-se para adaptar-se ao ambiente com a vitória dos mais fortes e capazes. O problema é que Darwin não falou nada sobre a origem da terra na qual evoluíram as espécies estudadas.

Porém, o pior de todos os efeitos desse pensamento é a perda de sentido da própria vida. Por isso vemos assustados os crescentes índices de homicídios, adultérios, pornografia, drogas, suicídios e tudo o mais que tem destruído o homem devido a perda de sentido da vida no todo criado. Também, vemos aumentar a dificuldade para levar o evangelho aos homens devido ao pensamento atual, que coloca o homem no nível inferior mas é autônomo, e a norma moral como algo religioso no nível superior, que cada um pode ter conforme desejar. Perdeu-se o sentido do universal, do todo que contém os particulares. Contudo, como o inferior é autônomo e a moral está limitada a apenas alguns, o autônomo vence o limitado e o engloba, tornando o que é subjetivo apenas uma parte do coletivo sem valor algum para todos. Mas isso também tem origem.

As religiões e filosofias do mundo foram sendo construídas por homens que observaram as coisas criadas e delas tiraram conclusões. Sem a palavra revelada, isso foi possível até um certo nível de entendimento, o qual está abaixo de Deus. É o limite do homem, embora ele tenha vislumbrado o transcendente também. Percebeu que não era possível tantas coisas existirem por acaso e, também, que o próprio ato de pensar não era algo surgido do nada. Apenas uma religião foi capaz de contar tudo, desde a origem até o final da criação, incluindo o homem: a religião judaico-cristã. Considero todas as demais filosofias metafísicas como particulares enquanto a Palavra revelada é o Universal que as contém. Os pontos em comum entre as filosofias metafísicas e a palavra revelada são as investigações humanas feitas distantes da revelação divina, mas que a tocaram levemente no que foi permitido por Deus. No entanto, falar isso ao homem de hoje é o mesmo que querer ser ridicularizado pois ele não aceita que houve uma revelação pois não entende que há um Deus Criador acima de tudo e que de tudo cuida.

A Bíblia contém o Universal tratando de particulares que, quando montados e unidos, nos devolvem a visão do todo criado por Deus, inclusive algo do próprio Deus que Ele nos revelou. Esta mesma Bíblia nos informa sobre a origem do homem, sua queda e redenção: como o homem retorna à compreensão desse todo. As mudanças de pensamento através dos tempos nos informam como essa queda influenciou a vida do homem, causas e efeitos. Com a revelação, vemos como Deus trata disso ao longo do tempo, mostrando como será o fim dessas coisas e o começo das novas, as quais não foram totalmente reveladas ainda (1Co.2:9).

A origem disso tudo, conforme falei acima, está na queda do homem, naquele fruto comido em desobediência. Antes da queda o homem tinha consciência do todo, podia saber da existência do mal mas não era influenciado por ele. Sabia inclusive da morte – que na Bíblia significa separação de Deus, a Vida – mas não a temia. Ao aceitar a oferta da serpente, o homem foi convencido por ela e passou a sofrer a influência do mal, que agora o domina, e seus pensamentos foram quebrados em dois níveis: o bem e o mal. O mal é autônomo enquanto que o bem é limitado pela moral, por isso, o mal triunfa temporariamente até que o Supremo Bem se manifeste: Jesus Cristo.

Satanás enfiou uma cunha no pensamento do homem, dividindo-o em dois, sabendo que poderia dominar na área do mal enquanto, por causa do pecado, Deus não mais estaria ligado ao espírito do homem, o que o faria não ser dominado pelo mal. Desligado de Deus, quem manda é a serpente.

Por isso o homem salvo tem seu espírito renovado e começa a ver o Universal novamente dominando o particular, e passa a entender outra vez as coisas celestiais junto com as materiais. O salvo compreende que faz parte do Universal e não está mais preso à mecânica de um particular dominado pelo mal. Realmente é um com Deus no Espírito Santo e retorna à transcendência pré-queda, ainda que de forma incompleta. O retorno é um dom de Deus e não um conhecimento meramente humano.

A história bíblica, informando-nos sobre o desenvolvimento desse pensamento duplo no homem, pensamento em dois níveis desde a queda até os dias atuais, deixa-nos ver que ainda está incompleto e prosseguirá um pouco mais até um ponto revelado. Isso significa que ainda falta algo para que entremos imediatamente na Grande Tribulação. Não muito, mas falta.

Para que o homem chegue a esse ponto e apareça o Iníquo falado por Paulo, é preciso que venha primeiro a apostasia. Essa apostasia religiosa que só se refere aos cristãos, e que já existe de forma evidente mas ainda não total, se intensificará e será a nova divisão do pensamento humano que manterá momentaneamente o homem do nível superior mas colocará nele o pensamento da besta apocalíptica, do nível inferior, dominando tudo pois é autônomo e não limitado. Não havendo sequer o espaço para o subjetivo religioso cristão como o conhecemos, o homem será totalmente dominado pelo falso profeta, no nível superior – a falsa religião – e no nível inferior pelo controle político que usa a ciência para suportar seus planos de controle. A besta controladora estará agindo em todos os níveis. Controle político será autônomo até que o iníquo exija total adoração a si mesmo com total controle sobre o nível religioso. Quando chegarmos totalmente nesse estágio, que já está em ação desde os tempos da igreja primitiva, não há mais volta e começa a grande tribulação. É preciso dizer, contudo, que haverá religião e será controladora tal qual o sistema político da besta. Quando digo que não haverá espaço para o religioso quero dizer espaço para a religião cristã genuína. Um misto de todas as religiões será o Universal enquanto que o político – controle – será o particular. Em suma, o mundo será visto não mais sob a ótica de Deus, mas como satanás o mostra e deseja. O homem quer viver sem Deus e terá esta experiência para que se cumpram as palavras do Senhor.

Eis o engano completo do homem, completamente dominado por satanás nos dois níveis de pensamento, que levará a vida humana ao total e completo desespero, fazendo com que procure a morte mas esta fuja dele. Se até a morte fugirá do homem, então o homem chegou ao ponto máximo da sua desgraça pois, se a morte é a distância da Vida que é Deus no conceito bíblico, isso significa que Deus não se fará próximo para socorrer os que aceitarem a marca da besta, de forma alguma. Este também é o conceito de lago que arde com fogo e enxofre, a segunda morte: ausência completa de Deus e sua graça.

Com isso, quero enfatizar que tudo está revelado na Palavra de Deus e tem sido explicado por muitas pessoas. Nós cristãos precisamos estar atentos e sempre estudiosos do que ela ensina para que possamos ver, junto com outros irmãos e irmãs, o que Deus nos tem revelado e transcende ao livro de papel no qual Suas palavras estão escritas. Isto pode ser compreendido apenas pela inspiração do Espírito Santo e não está restrito apenas a uma vertente cristã, seja ela protestante ou católica: ambas podem e devem compreender as verdades eternas. Porém, jamais podemos deixar de aprender com os homens que Deus tem usado para destrinchar esses pensamentos através da teologia, da filosofia e da história, conforme ensinado pelo grande filósofo. Paulo diz que devemos observar todas as coisas e reter o que é bom. Se deixarmos algo de lado, não estaremos compreendendo o todo, o universal, mas apenas uma parte dele, e podemos ser enganados a respeito do quê não conhecemos absolutamente nada.

(1) – Francis Schaeffer – A Morte da Razão

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