A distância até o alvo diminui se dermos o primeiro passo

            O Globo de hoje (26/09) publicou a opinião do leitor Rodrigo Roratto tratando do Profissionalismo para a administração pública. Nos comentários, o leitor Marco Aurélio da Silva Barcelos discordou dizendo que ‘seríamos injustos com aqueles cidadãos que, por falta de um investimento pesado do governo na educação dos mais carentes, deixam de receber a instrução necessária’. Com o devido respeito, discordo de ambos parcialmente.

            À primeira vista, a injustiça mencionada pelo comentarista parece correta, mas discordo pelo seguinte motivo: permitimos que indivíduos sem qualquer noção de direito e dever se instalem em cargos de autoridade e determinem, novamente sem qualquer noção, o que será da vida de milhares de pessoas, quando não de milhões.

            Argumenta-se sobre a diferença entre instrução e educação, sendo a primeira o que se aprende na escola e a segunda o que se aprende em casa. Sem dúvida alguma, pesa mais a segunda pois, se alguém não tem noção do que significa respeito aos seus, como poderá respeitar os demais que nem conhece? Contudo, a instrução se faz necessária pois, como dizia Rui Barbosa: “As palavras são idéias. Um homem sem palavras é um homem sem idéias”. A instrução formal abre caminhos para novas e, quase sempre, boas idéias; mas pode ampliar, também, o caminho da maldade. Todas as moedas têm duas faces.

            Continuando, e aqui discordo em parte da opinião do autor, só o profissionalismo não atesta idoneidade daquele que assume cargo público, assim como instrução não atesta honra. Haja vista que homens muito instruídos, como alguns dos nossos ministros do judiciário, praticam atos da maior gravidade e merecem punição semelhante à do marginal que só assina o nome com o polegar. O problema real não está nas leis nem nos diplomas, mas na aplicação da Justiça pelos que detém o poder de fazê-lo. É com Justiça séria que se enfrenta a criminalidade que hoje grassa no país.

           A corrupção chega a níveis assustadores e desconfiamos até dos que deveriam ser os baluartes da honra e da moral. Eles nos dão todas as razões para tanto. Leis só funcionam para o bem da sociedade através das mãos de pessoas honradas. O contrário também é verdadeiro e muito mais penoso.

            O problema está no homo brasiliensis, que aceita o errado como lucro e o certo como prejuízo. Corrupção é uma via de duas mãos que a instrução formal não corrige. Por vezes, até a aumenta. Para mudar, só a educação que vem do berço. Se continuarmos permitindo que a corrupção se sedimente na mente dos nossos jovens com os exemplos que vemos diariamente, quem conseguirá educá-los para a justiça?

            Nós, como detentores do poder, devido ao pacto social que corroboramos, podemos dar um basta a isso com vontade e determinação. Quem aceita um favor ilegal hoje, semeia um ato corrupto maior amanhã. O problema é que muitos inocentes colherão frutos amargos num futuro bem próximo. Alguns dentre esses muitos inocentes serão os detentores do poder, os quais perpetuarão a mentira depois de amanhã.

            Mentimos para nós mesmos quando aceitamos um favor ilegal, mas ficamos enraivecidos quando algum político corrupto beneficia um amigo da mesma forma. Estamos dizendo com isso (bem baixinho para nós mesmos) que aceitamos a corrupção só quando ela nos beneficia. Infelizmente, governos e governantes têm nos enfiado goela abaixo esse princípio egoísta, ainda recheado com pitadas de inveja quando corrompem e afirmam que tirar dos ricos para dar aos pobres é algo justo. Somos enganados duas vezes.

            Disse Jesus: “Tira primeiro a trave que está no seu olho, depois vai e tira o cisco que está no olho do seu irmão”. A retidão de caráter começa conosco em primeiro lugar.

            Manter uma vida reta significa poder enfiar o dedo indicador no nariz do corrupto e dizer em alto e bom som: – Eu não faço isso e não admito que você faça! – podendo dormir em paz, sabendo que a maioria faz o mesmo.

            Mas, como manter uma vida de retidão quando as leis, as autoridades, os políticos, a justiça, enfim, tudo conspira contra nós? A distância até o alvo diminui se dermos o primeiro passo. Temos um pacto social que poucos honram. Contudo, se formos unidos nesta empreitada, um só pensamento, uma só alma, uma só nação,  teremos um novo pacto, mais amplo, mais legítimo, mais capaz e ausente de vícios. Precisamos viver certos de que cada corrupto tem a cela que merece. Para isso ocorrer, é necessário termos júri popular para crimes contra a vida, contra o consumidor, crimes hediondos, de colarinho branco e para os atos ilegais praticados por políticos. Somos os que os elegem, nada mais lógico e justo sermos nós a julga-los também. As urnas não são o melhor lugar para isso. Urna é lugar de transformação, não de sentença. O corrupto pode não ser eleito, mas isso não significa que deixará de ser corrupto, pois ainda terá influência política. Os poderosos que abominam o júri popular são os que temem perder as regalias, pelo orgulho de serem mais iguais que os outros.

            Temos a obrigação de fazer isso o quanto antes. Não temos tanta vida pela frente ao ponto de podermos deixar para a próxima geração o que queremos ver realizado hoje. Isso não é pessimismo; é a simples constatação de que ninguém vive duzentos anos. Ainda quero ver aqui um brasileiro comprando jornal naquelas bancas sem jornaleiro. Se o vir fazendo o troco, meu trabalho não foi em vão. Só a nossa honra pode anular a última eleição desastrosa.

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