As palavras têm poder? São sementes sempre?

            Estes dias entrei no site de uma igreja e apanhei alguns estudos.  Gostaria de comentar um pouco porque gostei de algumas coisas e não gostei de outras. Antes, porém, de qualquer comentário, esclareço que não sou doutor em nada, apenas presto atenção ao que é ensinado e comparo com o que está na Bíblia. Dentre os estudos que apanhei, um está relacionado ao uso das palavras como forma de benção e maldição.

            Muitos têm apregoado que nossas palavras são sementes e concordo em parte. Concordo em parte porque, de fato, as palavras são a ferramenta usada para expressar nossos sentimentos, desejos e tudo o que se passa em nosso pensamento. E vão mais além: expressam o que está em nosso coração, ou seja, em nosso interior que não é visto por homem algum, e podem influenciar pessoas.

            Nesse sentido as palavras têm um poder magnífico pois, através delas conseguimos transmitir o invisível. Contudo, nas palavras não há poder suficiente para serem auto-realizáveis.

            Com razoável entendimento bíblico, penso que não podemos atribuir uma maldição apenas porque alguém disse algo ruim. Tal entendimento errôneo é um perigo maior do que a possível maldição em si.

            Na Bíblia vemos pessoas abençoando e amaldiçoando. Deus mesmo amaldiçoou nações, pessoas e até atitudes. Em outras situações, Ele abençoou, e o fez mais vezes do que proferiu maldição. Porém, Ele tem autoridade para tanto.

            É algo semelhante à sentença de um Juiz investido de seu ofício. Ele tem a lei do país garantindo que sua decisão será cumprida mesmo que seja com o uso da força. Deus não precisa que ninguém garanta suas decisões, pois Ele é o autor das leis que regem todas as coisas. Quando Ele diz, está dito e feito.

            Se pensamos que palavras podem amaldiçoar ou abençoar porque as dizemos, estamos nos enganando a nós mesmos. Isso não é verdadeiro.

            Imagine que alguém passa por uma situação de humilhação e, de repente, explode de raiva e profere palavras carregadas de ódio. Se só isso fosse capaz de materializar a maldição, estaríamos perdidos. Graças a Deus, não é. Para que qualquer coisa aconteça após as palavras terem sido verbalizadas é necessário ter autoridade para fazer acontecer o que foi dito.

            Alguns pregadores apregoam também que os cristãos têm autoridade para que suas palavras aconteçam. Sim, de fato o cristão tem uma autoridade dada por Cristo, mas está limitada a Ele. Pode usar Seu nome em muitas situações porque é parte da Igreja que Ele mesmo construiu. Mas, nossas palavras somente não têm autoridade alguma além daquela que Cristo entregou a elas. Assim, se um cristão abençoa alguém, suas palavras, por si mesmas, não farão bem nem mal a quem quer que seja ao longo do tempo, mesmo que sejam ditas com a intenção de.  Se não tiverem sido proferidas antes pelo Senhor de todas as coisas, inclusive das palavras, nada acontecerá.

            Por outro lado, as palavras podem afetar outras pessoas.  Quem as ouvir e as aceitar como suas, e convencer-se disso, sofrerá a influência do que foi dito. Porém, tal situação ocorre por influência pessoal, direta. A pessoa precisa ouvir para reagir ou aceitar. Se dizemos algo sobre uma situação, como p.ex. uma palavra que gostaríamos de ver cumprida em nosso país, nada acontecerá se o Senhor não a tiver dito antes. As palavras proferidas não têm poder algum para fazer qualquer coisa pois não têm autoridade em si mesmas para tanto. Deus mesmo diz: “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” (Is.55:11). Deus diz assim porque Ele é Deus; nós, não.

            É só assim que as coisas acontecem por palavras: o Senhor fala primeiro. Deus deu ao homem o privilégio de dar nome às coisas criadas e mais nada além disso usando palavras.

            Muitos versículos bíblicos são usados para embasar que as palavras têm poder. É preciso observar, porém, em qual contexto foram ditas para não inventarmos novas doutrinas que não estão escritas na Bíblia. Um texto tirado do seu contexto pode servir de base para qualquer tipo de doutrina.

            Conforme tenho observado em algumas pregações desse assunto, precisamos estar muito atentos ao que dizemos, pois, se dissermos algo ruim, irá acontecer. Não é assim, graças a Deus. O mesmo se dá quando dizemos algo bom. Por quê?

            Por uma razão muito simples: não somos nós os donos de coisa alguma aqui. Não mandamos nos fatos, nas pessoas, nos acontecimentos, nem no presente, tampouco no futuro. Algo só acontece quando Deus fala primeiro. Faço, contudo, uma observação quanto ao fato de podermos alterar certos fatos futuros com nossas ações presentes, mas isso é assunto para outro post.

            Há um texto bíblico usado para afirmar que temos um poder enorme quando proferimos algo. Está em Mt:18:18 – “Em verdade vos digo que tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu”.

            Porém, essa não é a tradução exata para os tempos verbais usados nos textos originais. A tradução correta é: “Tudo quanto ligardes na terra TERÁ SIDO LIGADO no céu e tudo quanto desligardes na terra TERÁ SIDO DESLIGADO no céu”.

            Falando de uma maneira simples, essa conjunção verbal significa um tempo passado, embora pareça estar no futuro pelo uso do verbo ‘ter’ nesse tempo futuro – terá. O sentido todo está no passado e significa: o que ligarem na terra já foi ligado no céu e o que desligarem na terra já foi desligado no céu. Assim, se ligamos ou desligamos qualquer coisa aqui é porque a ordem já foi dada primeiro pelo Senhor. Afinal, quem é Senhor? Jesus ou a Igreja? Jesus, claro. O corpo faz o que manda a cabeça, não o contrário.

            Assim, se dissermos algo conforme o Senhor nos inspirar a dizer, então aquilo é, de fato, real e vai acontecer. No entanto, muitos erram aqui também, porque afirmam que “Deus os mandou dizer isso e aquilo” quando, na verdade, Deus não disse coisa alguma. Creio que Ele fala conosco, mas pelos relatos bíblicos e por experiência própria, sei que isso não ocorre de qualquer maneira, muito menos quando queremos. De uma forma bem genérica e simples digo que quando deixamos nosso querer de lado, o Senhor nos mostra o que Ele quer. Pode ser que seja até o que queremos, mas pode não ser também. As chamadas ‘profetadas’ são muito perigosas, pois quem as ouve pode achar que são reais, vindas de Deus, e sofrer sem motivo. E, se vêm de Deus, quem poderia contestá-las? Por isso, todo cuidado é pouco nessa questão. Trato disso noutro post.

            O texto que mencionei acima nos informa que se ligarmos algo aqui é porque já está determinado no céu, e não que será determinado pelo Senhor porque determinamos aqui. Observe que isso tira de Jesus a autoridade que só Ele tem e ninguém mais. Nem a Igreja. A Igreja, como corpo, só faz o que a Cabeça determina. Assumimos esse compromisso quando aceitamos a salvação e nos entregamos a Deus para cumprirmos a Sua vontade aqui. Esse foi o trato que Deus fez conosco. Se o aceitamos desta forma, por que pretendemos alterá-lo? Não fomos nós quem escolhemos a Deus, mas Ele que nos escolheu a nós. Não podemos mudar nada nessa questão.

            Essa doutrina faz parte de um conjunto de doutrinas que dão à igreja um poder que ela não tem. Igreja é corpo, e corpo não manda. Corpo obedece à Cabeça. As doutrinas a que me refiro dizem respeito à doutrina da determinação. Elas afirmam que se eu determinar algo, aquilo acontecerá. Não é assim também, graças a Deus. Mesmo não tendo esse poder, já fazemos bobagens demais. Quantas e terríveis coisas aconteceriam se tivéssemos esse poder!

            Por outro lado, penso também que podemos transtornar a vida de alguém usando apenas palavras. Isso é inegável. Mas, para que isso ocorra, precisamos como que martelar o pensamento de alguém até que se amolde ao que estamos querendo.

            E não são necessárias apenas palavras também. Com gestos e atitudes também podemos ir além de uma simples comunicação. Estragamos o dia de alguém com um simples olhar de reprovação sem dizermos uma só palavra.

            O que todos os textos bíblicos nos informam a respeito do falar é que precisamos usar a língua com sabedoria, pois podemos até nos condenarmos por causa dela (Davi se condenou a si mesmo na sentença que proferiu quando o profeta Natã contou sobre o homem que tinha muitas ovelhas e, ao receber uma visita, sacrificou a única ovelha do seu vizinho, referindo-se ao adultério e assassinato cometidos pelo rei contra seu soldado Urias – IISm.12). No entanto, a língua não se move sozinha, como que por conta própria. A língua não tem vida independente do corpo. Jesus disse que o homem se contamina pelo que sai da sua boca, não pelo que entra por ela, porque o que sai da boca vem direto do coração.

            Influenciamos pessoas com nossos pensamentos, ainda que apenas escritos. Você está pensando no que eu escrevi aqui sem ouvir uma só palavra da minha boca. Se isso fizer você pensar mais e ir além, buscando a compreensão do que pregam em comparação com o que está lendo agora, então, o que pregaram e minhas palavras atingiram você, e agora você quer uma compreensão correta do que está em seu pensamento. Há uma dúvida e você quer esclarecimento, quer saber onde está a verdade. Isso é ótimo!

            Então, caso você siga adiante em sua busca da verdade – o que penso ser excelente – lembre-se de que tudo o que nega qualquer parte da obra de Cristo não vem de Deus.

            Jesus é Deus que veio em carne. Jesus andou como homem entre nós e levou sobre si as nossas dores. Ele se entregou em nosso lugar morrendo numa cruz sem ter cometido qualquer pecado, e nasceu sem ele também. Depois de três dias foi ressuscitado pelo poder de Deus e hoje está à direita do Pai atuando como nosso Advogado. É o primeiro homem ressurreto, as primícias. Ele é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. Sua obra foi completa, suficiente e eterna para realizar a salvação da humanidade. Ele é Senhor de todas as coisas. Portanto, qualquer doutrina que altere o menor ponto desta porção da doutrina bíblica a respeito de Cristo está errada e deve ser descartada.

            A doutrina da determinação também tira de Cristo a autoridade que só Ele tem, da mesma forma que a doutrina das ‘palavras poderosas’ também o faz. Nada acontece aqui sem que venha primeiro do Senhor. Ele tanto pode permitir quanto ordenar que algo aconteça, mas em todos os casos, Ele é o único que tem autoridade para isso.

            Fiz esse breve comentário porque tenho visto muita gente temendo a própria realidade. Pessoas sinceras em sua fé chegam a não relatar um problema sério por puro medo de estarem dando autorização ao diabo para agir em suas vidas. Isso não existe na Bíblia. Os problemas, para serem resolvidos, precisam ser detalhados, esmiuçados, compreendidos e, muitas vezes, relatados a outros com mais entendimento que nós. Se nos recusamos a falar um problema por medo de estarmos dando ao diabo a chance de nos derrotar, novamente estamos tirando a autoridade de Cristo e afirmando que Ele é mentiroso. Não é. Ele mesmo disse que as portas do inferno não prevalecerão contra a Sua Igreja. Então, por que temer?

            Se você tem um filho problemático, não tenha medo de contar o problema a alguém e pedir oração. Nem sempre conseguimos fazer tudo sozinhos. O diabo não irá fazer nada além do que já está fazendo por causa disso, e irá só até onde o Senhor permitir que vá. Não será por que você contou ou falou com palavras o que ele faz que o diabo irá agir mais do que já está agindo. Não vai. Se isso acontecesse de verdade, Deus seria mentiroso, e isso Ele não é.

            O diabo só faz o que lhe é permitido. Quando o homem caiu da presença de Deus já fez tudo de ruim que podia fazer e, a partir daí, o diabo passou a estragar muita coisa por aqui. Por isso Jesus veio. Se você está em Cristo não há o que temer. Se alguém em sua família está com problemas, ore e esteja ciente de que Deus pode tudo e fará o que prometeu fazer se nós O buscarmos com humildade e fé. Se você tem mais medo do que confiança, então, algo está errado. O amor joga o medo fora.

            Ainda, quero dizer que você não precisa viver uma vida de temores infundados. Tema somente a Deus e ame-O de todo o seu ser. Qualquer outra doutrina que lhe ponha medo e temores disso e daquilo não deve ser seguida. Cristo veio para nos libertar, não para nos tornar fantoches, mamulengos guiados pela vontade de homens. Se Cristo nos libertou, então somos verdadeiramente livres. Que nossas palavras sejam sempre bem temperadas para não machucar quem as ouvir é uma recomendação bíblica. Isso é bom e agradável a Deus e aos homens.

            Lembre-se mais ainda que ninguém pode lhe colocar um cabresto e mandar em sua vida, inclusive através de palavras. Só Jesus é Senhor. Esteja atento ao que está escrito: no final dos tempos os homens irão atrás de fábulas e estórias inventadas, mas não aceitarão a sã doutrina bíblica (2Tm.4:3,4). Portanto, procure saber profundamente o que lhe é ensinado, inclusive pelos pregadores mais renomados. São homens sujeitos a erros e vaidades. O que escrevo aqui, também deve ser levado em oração e estudado com muita atenção porque não sou Deus. Está escrito: Se houverem profetas, que falem dois ou três, e os outros julguem (1Co.14). Se a palavra dos profetas fosse perfeita, não seria necessário julgamento. Então, siga essa recomendação da própria Bíblia: “Meu povo sofre porque lhe falta o conhecimento…” – Os.4:6. Lembrando ainda do que disse Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Ele é a Verdade, conheça-O e aprenda Dele.

           

            

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